quarta-feira, maio 25, 2005

reflexões nocturnas...


por vezes, quando me deito à noite, penso em como seria se daqui a 3 meses tivesse que deixar o diogo e voltar ao Projecto...penso como seria quer em termos pessoais quer em termos profissionais...

hoje debruço-me sobre a questão profissional...

sou assistente social...acredito na solidariedade, na equidade e continuo a acreditar que posso fazer a diferença na vida dos que, por um motivo ou outro, precisam do apoio de técnicos qualificados...

mas não acredito na caridade...e abomino qualquer forma de paternalismo...

tudo isto para dizer que não sei qual seria a minha reacção se, daqui a uns meses, me visse confrontada (como já tantas vezes aconteceu) com uma mãe sem comida para dar aos filhos...ou se me deparasse com um pai desesperado por não ter dinheiro para comprar aquele medicamento...

já vi muitas colegas minhas (demasiadas, na minha opinião) tirarem dinheiro do bolso e darem-no aos utentes...já vi técnicas a irem a casa dos utentes e darem-lhes avios comprados com o seu salário...nunca critiquei...mas sempre achei errado e sempre expressei a minha opinião...nunca o fiz...nem nas situações mais desesperadas...

hoje, com uma perspectiva completamente diferente da maternidade...com um diogo lindo na minha vida...com o desconhecimento do que é não poder satisfazer as necessidades básicas de um filho...não sei mesmo qual seria a minha reacção...e tenho medo que esta coisa de amar para além de todos os limites me tenha toldado a veia profissional...

12 comentários:

Mãe Bisnaga disse...

Pois é... ser pais afecta-nos não é?
Acerca de dar ou não dar, não sei a posicão de uma assistente social, só posso falar no papel humano e não profissional.
Quando ai estava cheguei a dar a pessoas que precisavam. E porque não?
Não lhe vor por nomes de caridade ou paternalismo! Simpelsmeste na altura tinha e a outra pessoa não. Porque não partilhar?

Sempre me custou saber que eu quando chegasse a casa tinha comida disponivel mas outros nem um bocado de pão tinham para comer...

carla disse...

Olá Inês

Eu não dava para essa profissão, porque nunca jamais eu iria conseguir ver uma criança a precisar de comida ou de um medicamento e não fazer nada......

E depois de ser mãe ainda era pior, não imagino a dor de um pai ou de uma mãe em querer dar de comer a um filho e não ter.

Bjs
Carla

Ana disse...

Eu sempre me recusei a dar esmola seja aquelas "senhoras" com bébés ao colo nos semáforos...mas tenho a sensação que quando tiver a Leonor não vou conseguir olhar para o lado.
Beijos

Filipa disse...

Pois é Inês, se calhar agora vais fazer como elas... Nós acabamos sempre por imaginar que são os nossos filhos que estão a passar por aquilo, e aí... fica complicado.

Beijinhos
Filipa

Anónimo disse...

Definitivamente eu vivia numa angustia enorme se convivesse diariamente c/ situações dessas...
Não conseguiria separar as coisas e a minha vida transformava-se com toda a certeza numa tristeza profunda, por conhecer casos tao arrepiantes tao proximos de mim... Não iria conseguir sentir-me bem c/ aquilo que tenho sem ajudar ...
E é de louvar quem assim é!
Vai ser mais dificil p/ ti agora...
Monica Santos http://blog.portaljunior.com/ani

Karla disse...

A maternidade de facto afecta-nos de uma forma incrível. Também fico mais ou menos (só mais ou menos) indiferente a quem anda a pedir pelos semáforos com os filhos pela mão (atenção que não fico indiferente às crianças, mas às mães, pela miséria moral que demonstram, na maioria, pois fazem aquilo como modo de vida e não por necessidade). Agora os casos de que falas, de pessoas desesperadas, aí é diferente... compreendo o teu dilema e desejo-te boa sorte, mas também acho que doravante vais encarar essas situações de outra forma.

Ana Rute Cavaco disse...

Podendo parecer exagerado para algumas pessoas que ainda ñ passaram pela maternidade, a verdade é que nos muda na totalidade...(dito sem qq tipo de presunção ou arrogância!)

Costinhas disse...

É mais uma mudança com que temos de lidar. Espero que até ao teu regresso consigas arranjar a tua concha protectora contra algumas dessas situações.

Porque infelizmente há casos e casos, eexiste muita gente a pedir caridade sem necessidade e muita miséria escondida.

Beijinhos
Sandra

Anónimo disse...

do que tens de te lembrar eh daquilo em que acreditas. claro que isto de ser so tia eh facil, e eu por mim facilmente daria coisas que poderiam talvez ser apelidadas de "esmola" antes, quanto mais agora...
mas se ha coisa que admiro em ti sao os teus principios, e mesmo que o nascimento do diogo os tenha adaptado a tua nova vida (o que nao significa que estejam completamente diferentes), isso nao eh motivo de vergonha ou embaraco.
a pessoa que ehs esta ai, dentro de ti, e eu acredito que, fosse qual fosse a tua decisao, se te visses nessa situacao, admirar-te-ia como sempre faco quando te olho como a profissional que ehs, que por mais que se entregue lembra-se sempre de manter pelo menos um pe na terra.
pelo menos.
ja outros.....
;oP


gosto muito, muito de ti, mana.

x

Sonia disse...

Em profissões como a tua é sempre necessária uma boa dose de "frieza" , de conseguir separar o "trigo do joio" que é como fazer o sentimento "ir dar uma volta" fora da personalidade.

Sou Psicologa e ás xs tb tenho de ser assim... mas custa, ainda por mais quando se tratam de crianças, entendo a tua dúvida, mas de certeza que na ltura saberás avaliar o caso que tens em mãos. Cada caso é um caso diferente, e nem sempre podemos ser "frágeis" , ao ceder por vezes não ajudamos, so incentivamos a que nada se faça e a miséria continue.

Conheço casos em que como existe ajuda, nada fazem para serem integrados, não aceitam trabalhos que são propostos ou deixam de ir por e simplesmente.

De certo a tua resposta interior te levará ao melhor caminho.

beijocas
*******

AnaBond disse...

Se antes conseguias dizer não, acredito que agora te irá ser muito mais dificil. Como tantas que já aqui escreveram, também eu não dava para essa profissão, principalmente agora depois de ser mãe.
Às senhoras dos semáforos digo não. Custa-me pois as crianças sofrem, e não há ninguém que faça nada. Mas como disseram também muito bem, não é somente necessidade. É mesmo um modo de vida.

Mas vejo-me a mim. Aqui em casa o rendimento mensal não é assim tão baixo e felizmente se tudo correr como tem corrido até agora, não irá faltar comida ou medicamentos aqui. Mas imagino aqueles que recebem muito menos que nós... e sinceramente, não sei como conseguem.

Sara disse...

Eu entendo essa dúvida. Acho que depois de se ser Pai/Mãe, tudo se modifica em nós (embora eu ainda não seja).
No entanto, 'tapar o buraco' a essas pessoas, naquele momento, não as ajuda a resolver o problema. Ensina-se-lhes que haverá sempre alguém que lhes há-de recorrer. E então a preocupação para fazer algo de efectivo para mudar o rumo da vida diminui.
Há um ditado muito verdadeiro, que eu não me lembro, mas é qualquer coisa como ensinar o homem a pescar e assim ele tem comida para o resto da vida.
A minha Mãe é muito de ajudar quando vê pessoas a pedir dinheiro; ela não lhes dá dinheiro, mas diz-lhes que vão comer e ela paga. Eu concordo quando isso é feito a crianças. Mas os adultos podem tentar resolver a situação de outra forma.
Eu sou Educadora de Infância e trabalhei no Bairro do Pica-Pau Amarelo, no Monte Caparica, e vi muitas mães, com pouco dinheiro e filhos com fome, a passar os dias no café a fumar e conversar, em vez de procurar trabalho. Isto porque, no final do mês, ou semana, têm um subsídio qualquer e um saco de comida. Assim NÃO!!!
Eu sou a Sara e conheço o Toni desde pequena. Moro ao pé dos pais dele. Namorei com o Jorge, o amigo dele. Fiquei muito admirada quando o vi na foto com o filho ao colo. Fiquei muito Feliz pelos 3.
Bjnhs e Felicidades